"O poeta é um fingidor/Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente."
(Fernando Pessoa)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Quem é você pra derramar meu Mungunzá?

Durante quase uma década não tive um companheiro. Não andei de mãos dadas por aí, fazendo planos de um futuro em comum. Não fiz declarações de amor públicas nem dediquei musiquinhas em postagens fofas da internet. Fui a rainha das selfies (cujo nome fala por si só). Vi meu filho ir visitar o pai e se afastar pela janela por diversas noites onde me acompanhei de Deus, meu travesseiro e a Netflix (não necessariamente nessa ordem). Durante quase uma década eu esqueci que eu era uma princesa e fui ser rei na mais alta torre do meu próprio (e solitário) castelo.

E lá do alto, admirando o meu reinado, nunca murmurei, nunca desejei mal, nunca cobicei o que não era meu. Fui a aniversários, batizados, noivados e casamentos (inclusive da minha antiga família) e em cada uma dessas ocasiões, ao invés de me queixar, renovava minhas esperanças em um futuro melhor, nunca desacreditando do amor.

Fiz essa reflexão para que você possa compreender por qual razão ultimamente, minhas sinapses nervosas entram em colapso ao perceber a maldade alheia: há pessoas que realmente se incomodam com a nossa felicidade. E isso é impressionantemente triste!

Caríssimo leitor, curioso ou desejoso de mal, deixe-me parafrasear o poeta: “Quem é você pra derramar meu Mungunzá?”. Saiba você que: O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela. O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. (1 Samuel 2:6,7).

Então, se a minha felicidade (e a sua) durar a vida inteira (é assim que eu oro) e depois, a vida eterna (em nome do Senhor Jesus), é somente pela graça e misericórdia de Deus e nunca, jamais, pela sua ou minha interferência.

Acredito que a essa altura, faz sentido eu dizer que se durar apenas um dia, e eu tiver que voltar ao estágio inicial deste texto, vou continuar me comportando da mesma forma de antes, e você da sua. Eu sendo feliz assim mesmo. Pela Sua graça.

Em se tratando de amor, que as minhas próximas décadas sejam infinitamente melhores que a última. E as suas também. Pois a vida é isso: orar sem cessar, acreditar e desejar o bem. Não importa a quem.

Então, pelo amor de Deus, deixa de dar show!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Ouço passos.


Ouço seus passos no corredor.

Poderia estar em meio a uma multidão que ainda seria capaz de reconhecer o som dos seus pés ao imprimirem ritmo ao chão.

Para os outros, apenas passos. Para os meus ouvidos, ressonância inconfundível.

Já começo a sentir os pelos do meu corpo se arrepiando. Minhas mãos suadas. Coração batendo a mil. Estou incontrolável.

Sua simples chegada perturba a minha mente e bagunça a minha vida!

A esta altura você já sabe do que eu estou falando não é? Isso mesmo: implicância!

Implicar é se permitir sentir aversão por alguém e deixar de exercer a tolerância. Tornar-se o que não é e demonstrar (mesmo que apenas para nós mesmos) a pior versão da personalidade. O objeto da nossa repulsa talvez nem saiba que desperta esse sentimento. Talvez nem faça nada para merecê-lo. E mesmo que seja a causa determinante do que nos afasta,  deixar-se dominar pela antipatia é a pior coisa a ser feita: significa perder. Significa se desviar. Se afastar do que é mais caro. E não ter paz, por fim.

Hoje ouvi de uma pessoa que admiro numa conversa totalmente casual: não permita que outra pessoa, independente de suas atitudes, mude a sua essência.

E sabe? É exatamente isso que a cisma faz: muda a sua natureza. Desestabiliza o seu cerne.

Então, meu caro, vou fazer um pacto comigo, com você, com Deus e o mundo: a partir desta data irei concentrar meus esforços para não mais implicar com você. Ainda que você resolva com esses seus pés barulhentos sapatear na minha cabeça, nas minhas idéias e nas minhas certezas.

Venha e vá em paz – pois cá entre nós – seu caminhar não tem mais poder.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Lado A. Lado B.

Se tem uma coisa que considero prejudicial, são os rótulos. Etiquetar pessoas, atrasa a vida.
Vejam bem: se eu sou uma socialista, PTralha, esquerdista e comedora de pão com mortadela, logo, não tenho capacidade de compreensão do que está realmente acontecendo no Brasil, também não consigo ler um projeto de governo e nem uma notícia até o fim, antes de me posicionar. Sou taxada de massa de manobra na melhor das hipóteses, e na pior, sou farinha do mesmo saco que essa corja de corruptos comunistas fãs de Fidel.
Na outra ponta, se eu sou capitalista, empresária, coxinha, tomadora de dindin de Chandon, e apoiadora da TV Golpista, não consigo me solidarizar com a classe trabalhadora e na verdade só quero ver mesmo é o povo se lascando para que eu fique cada dia mais rica. Dizem que sou a favor da volta da ditadura, que sou homofóbica, seguidora de Bolsonaro e outras sandices que não consigo me lembrar agora.
Minha gente, melhore!
Vamos tirar essa venda de arrogância que está travando os nossos olhos e perceber que existem sim, pessoas de esquerda que não são analfabetas e perfeitamente capazes de zuar um slide tosco, não para relativizar a seriedade da coisa, ou jogar uma guerra suja, mas pelo simples fato de que a gente é um povo bem humorado, que diante de tanto acontecimento, tanta podridão saindo de debaixo do tapete, ainda encontra espaço para achar graça de um ppt que parece que foi editado pelo meu filho de dez anos.
Vamos perder um pouco desse pedantismo também, de achar que tudo é golpe, que estão armando contra o povo, que todo projeto de lei é para beneficiar os mais abastados, que todo o discurso do PT deve ser aplaudido simplesmente por que acreditamos que não houve crime de responsabilidade. Tem muita gente errada, muita gente criminosa e não se pode simplesmente permanecer na ignorância (nem por vontade).
Em plena era do multi, do pluri, da disseminação da informação, acho um verdadeiro absurdo essa divisão de lado A, lado B. Isso é tão anos 80! Somos multifacetados. Me recuso a acreditar que num mundo globalizado, o  Brasil queira nadar contra a corrente. É de uma burrice tremenda.
Meu texto não vai ser tão compartilhado quanto o da economista engajadinha que sente náuseas de pessoas que não conseguem ler nem interpretar textos e querem dar sua opinião sobre as coisas e nem da socialista das cotas que pediu para ninguém assistir o discurso de Lula na mídia golpista que só quer distorcer a fala do ex-presidente. Mas talvez alcance você, que assim como eu, encontra ‘furos’ no discurso de ambos os lados.

Essa bipartição, além de problemática, é perigosa, e talvez nos leve a ruína.

E tenho dito.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Foi mais ou menos assim...

Sentamos num bar à beira mar. Tudo parecia como antes, exceto pelo fato de estarmos decidindo nosso futuro juntos. Ou separados. Percebi tristeza na sua voz. Quis te abraçar antes de qualquer coisa. Mas me contive. Queria ouvir o que você tinha a dizer. Para o melhor ou para o pior.
No seu discurso pude perceber que você não estava procurando uma maneira de continuar, mas elencando razões pelas quais deveríamos parar por ali. Cada sentença, uma justificativa. Tive vontade de chorar como uma criança. Mas não chorei, afinal de contas precisava ser forte para te dissuadir daquela decisão.
Você estava irredutível.
Comecei a sentir a dor emocional se converter em física. Posso jurar que o coração dói de verdade quando a gente está sofrendo por amor. Senti a dor caminhando para dentro do meu peito enquanto tentava demonstrar como você estava errado.
Você estava impenetrável.
Então você falou sobre as minhas cartas. Li e reli todas elas, você disse. Contou que achava que estava me prejudicando, sendo uma coisa ruim para mim. Afirmou que infelizmente a gente se encontrou numa má hora e isso fez com que a gente nunca desse certo. Que você tinha medo e que o utilizou para construir uma barreira que eu não conseguiria romper.
Você estava decidido.
E aí? – perguntei.
E aí, que acho melhor a gente terminar. – você respondeu.
É agora ou nunca, pensei. Não vou conseguir convencer este homem a se encontrar comigo mais uma vez. E eu não quero que ele vá. Meu corpo se retesou de vontade de agarrar ele ali mesmo. Como eu o amo!
De um fôlego apenas, explodi: Meu Deus! Como você pode ser tão tolo? Como é que a vida te presenteia com uma pessoa que te completa de tantas maneiras e você simplesmente a deixa ir? Isso é desperdício de vida! De quantas maneiras precisarei te explicar? De quantos argumentos terei que lançar mão? Quantas lágrimas precisarão rolar pelo meu rosto?
Você estava acessível.
- Por que você veio com esse batom vermelho?

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Bilateral.

Um problema dos contratos é quando uma das partes decide alterar termos que não foram acordados anteriormente.

Claro que o café esfria, o mundo gira, as pessoas evoluem e mudam-se os desejos. Assim, nada mais justo do que querer rever cláusulas, correto?

Bom, não é bem assim, já que o contrato é um vínculo que necessita de vontade mútua.

Então, pode ser que a outra parte não fique muito feliz com a proposta por quê:

a)      Não está na mesma vibração evolutiva que você;
b)      Está satisfeita com todos os itens;
c)       Não está em condições de aceitar proposições;
d)      Simplesmente não aceita nenhuma alteração.

É necessário haver interesse de ambas as partes se pretendemos negociar, afinal de contas, é a bilateralidade que rege as relações.

 “Quando um não quer, dois não brigam”.

Não barganham. Não consentem. Não firmam parceria. Não resolvem.

E quer saber? Às vezes a gente precisa admitir que, a despeito de qualquer vaidade, se formos nós os proponentes das modificações, precisamos arcar com os desdobramentos da recusa do outro em estabelecer conversação acerca destas. Não podemos transformar em obrigatoriedade ao outro viver de acordo com o nossos preceitos. E quando não há sequer a manifestação de contraproposta, qualquer tipo de condição torna-se infrutífera.

É imprescindível ter convicção que o resultado final pode ser a quebra por tentativa de mudanças em decisões negociadas antes da assinatura.

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Sim, é bem complicado deixar de lado o egocentrismo e os melindres.

Sim, tenho vontade de espernear e enfiar goela abaixo do sujeito apenas o meu texto. (Na verdade, eu já esperneei)

E sim, estou falando do Contrato Bilateral de Amor. 

domingo, 15 de maio de 2016

Imprevisível.

Posso criar na minha mente dois ou três diálogos para inúmeras situações. Sou capaz de debater de forma tão eloquente numa discussão fantasiosa que qualquer interlocutor teria de se curvar à minha nobre sabedoria. Conheço uma nova pessoa e produzo idéias inteligentíssimas para impressioná-la. Tomo uma decisão que irá mudar minha vida por inteiro para descartá-la logo depois. Termino meus relacionamentos a cada quinze minutos e reato nos outros quinze.
Acho que tem a ver com o fato de escrever: imaginação à todo vapor! Viver inúmeras histórias dentro de uma. Aprender e reaprender com minhas idéias. Discutir e tornar a discutir os meus princípios. Viajar nas palavras e tornar ao meu lugar de origem mais sábia.

Parece bacana né?

Mas veja o problema que se forma: Ao imaginar diálogos fictícios, deixo de lado os reais e necessários. Se sonho com viagens hipotéticas fico aprisionada à cenários. De tanto criar caminhos, acabo sem encontrar a saída dos labirintos.

Permaneço em letargia.

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Bom, passaram-se alguns dias entre a minha divagação e hoje. Quero dizer que é uma sensação que tentei aplacar com ousadia. Qual o sentido da sujeição ao calar se você pode ser rei de si mesmo ao falar?
Assim, livrei-me de uma bagagem desnecessária, que promoveu na minha vida uma mudança tremenda: as noites mal dormidas, o desespero, a fixação doentia, o amor exagerado, tudo isto substituído pela certeza de uma boa decisão.
Você pode estar pensando agora: que bom não é mesmo? Às vezes é preciso tomar certas atitudes, resolver problemas antigos, dar passos em novas direções...
Mas meu coração, caro amigo - inquieto por natureza - descobriu um novo imbróglio: foi quando ele levou sua verdadeira voz para o mundo real que experimentou o silêncio.

Apenas silêncio.

Imagine o meu choque! Obviamente, entre as probabilidades que trespassaram a minha criativa mente, a falta de diálogo estava fora de cogitação.

Deu-se a ironia: O amor, que ao obedecer a Teoria da Imprevisibilidade, seduziu-me a voltar ao estágio das conversações simuladas.

Vai entender.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Congrats.

Dia desses, minha irmã falou que eu levei tanta pancada na vida que não sei me comportar bem quando alguém me faz um elogio. Na “quentura” do momento eu confesso que aquilo me aborreceu um pouco. Como assim não sei receber elogios? Quem no mundo não sabe se comportar ao receber parabéns por algo? Mas sabe que ela tinha razão?
Na vida aprendi a me reerguer milhões de vezes. Cada ofensa, cada relação abusiva, cada rasteira, cada decepção tinham em si uma oportunidade de superação, de crescimento. Fui provando o meu valor admitindo que cada problema poderia ser um obstáculo a ser superado. Assim, a mola que me impulsionava era a adversidade.
Mas que bom! Muita gente se retrai diante de situações ruins não é verdade? Eu não, eu renasço. Eu me reinvento. Eu ressurjo.

Mas de tanto reaparecer, cansei. Agora quero permanecer. E para isso, quero fazer um pacto comigo mesma: continuar ultrapassando as barreiras, e ao mesmo tempo, aceitar que os elogios são em si razões para buscar mais, para galgar novos espaços. E construir novos caminhos.